Só mais um outono.
Era outono de 2013 e mais uma vez o que sobrava dela era só uma carta, em cima da mesa aonde eles costumavam tomar café juntos no domingo. Deu uma última olhada na casa, aonde deixava um namorado, um cachorro e algumas roupas velhas para trás. Ela se abraçava para se proteger do frio cortante da manhã de Bakersfield na Califórnia. Andava o mais depressa possível, arrastando a mala que a seguia sempre e acobertava todas as suas prometidas últimas vezes. Olhou no relógio e pensou como seria se tivesse ficado. Não ficado ali, exatamente naquela casa, mas ficado em algum lugar, algum lugar que pertencesse. Nenhuma batida de coração foi igual e suas crises não tardavam a acontecer, logo queria mudar, pegava nojo das pessoas e dos lugares e se entupia de cigarros. Nunca chegou ao porquê de ser tão exagerada. Chegou apressada á rodoviária e subiu no primeiro ônibus parado ali, esperando por ela. Observava pela janela a manhã fria e nublada e algumas pessoas já saiam para trabalhar. Recordou uma vida inteira naquela viagem, já era quase natal e só mandaria cartões toscos pó Brasil como fizera no ano passado. Vinte anos ainda não eram muita coisa pra contar, todos os lugares não eram suficientes para visitar, todos os momentos não eram suficientes para experimentar. Se o seu lar é aonde o seu coração está, o lar dela não era nada mais que lembranças que não gostava de recordar, lembranças de projetos de vida nunca concretizados. O ônibus havia parado

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